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Voltando

Retomando os trabalhos do blog. A cada dia fico mais impressionado com este disco novo do The Horrors. O primeiro disco dos caras é uma bobagem, mas este Primary Colors é algo especial. Esta última faixa é brilhante.

Se o primeiro solo de Jarvis Cocker era provavelmente o melhor álbum solo de alguma figura ligada ao rock inglês dos anos 90 (com a possível exceção de Luke Haines, mas toda a carreira de Haines no fundo é solo independente do nome com que assina), este Further Complications busca justamente impedir que uma afirmação como essa. Cocker parece querer justamente cavar um espaço próprio a parte da descrição “ex-vocalista de Pulp”. Não surpreende portanto que seja um disco mais difuso que por vezes salta faixa a faixa de forma um tanto grosseira, mas ao mesmo tempo tem um frescor maior que Jarvis. Muitos provavelmente irão se centrar na produção de Steve Albini e no tom mais barulhento de boa parte das canções, mas isto não me parece tão vital. Basta pensar no duo “Leftovers” e “I Never Said I Was Deep”, canções que podiam até estar no disco anterior, mas que se diferenciam justamente por serem pensadas a partir de um contexto diferente (no lugar de simplesmente serem apresentadas num outro contexto). Further Complications apresenta um Cocker que parece ter desistido de ser o Scott Walker da sua geração e se aproximar mais de um Nick Cave. Nem tudo aqui funciona perfeitamente (o primeiro single Ângela é uma imitação frustrada de T. Rex), mas Cocker parece muito a vontade e há canções excelentes como “Fuckinsong” ou “Homewrecker!” (sem falar na excelente You’re in My Eyes (discosong)” que encerra o disco).

Não existe nenhuma razão para comentar estes dois discos juntos tirando o fato deles serem organizados na minha coleção quase em seqüência (meu iTunes se recusou a tirar o MF do DOOM) e por conta disso eu escutá-los juntos quase todos os dias e que a pouco mais de hora que passo por dia em companhia deste dois discos é sempre um grande prazer.

De qualquer forma pode-se dizer que Daniel Dumile e Mica Levi tem em comum a mesma posição de operários-exploradores da musica pop. Logo Born Like This e Jewellry não são tão coesos como digamos Merriwather Post Pavillion, mas compensam na forma como se lançam nas possibilidades do seu material. São álbuns que podem soar como meras curiosidades na primeira audição, mas se tornam cada vez mais viciantes na medida em que nos envolvem na suas sonoridades próprias.

O que primeiro impressiona em Born Like This é o trabalho vocal. Não que a produção deixe a desejar, como todos os trabalhos de Dumile desde os tempos de KMD, o álbum tem bases sempre criativas e expressivas, mas DOOM parece encontrar aqui ainda mais formas de nos levar pelos seus versos curtos. Basta pensar em “Angelz”, parceria com Ghostface, que é um primor de narração abstrata que pode ser visto como equivalente hiphop de um filme do Tsui Hark. DOOM está tão inspirado que até “Batty Boyz”, onde ele parece disposto a produzir os três minutos de insultos homofóbicos mais concentrados da música pop recente, termina como mais do que uma simples extensão da gag sobre a sexualidade de Batman e Robin. Depois de passar a primeira metade da década explorando sua imagem até a quase caricatura na altura das obras-primas Madvillainy e The Mouse and The Mask, Dumile tirou MF DOOM de circulação e até chegou a encenar alguns happenings em que era substituído por um sósia para desespero dos fãs. DOOM como projeto sempre foi altamente conceitual: um excelente MC alternativo se escondendo – literalmente – por trás da mascara do supervilão de cultura pop para inserir restaurar o que a primeira vista só poderia ser uma grande piada com convicções e obsessões bem sérias. Não surpreende que tenha alcançado um pico criativo quando sua identidade parecia tão próxima do desgaste e que o silêncio se seguiu a um movimento de restauração tão forte. Tudo em Born Like This aponta para esta idéia da opção de abrir mão do MF no nome ao uso de material já surrado (Angelz já e conhecida dos fãs faz algum tempo e algumas bases são requentadas) que se revelam menos preguiça e mais como uma forma de recontextualizar a sua própria figura. Born Like This não deixa de ser um espelho de Operation Doomsday (primeiro disco de DOOM), outra origem de supervilão devidamente reciclada e atualizada. E como resistir a algo como “Cellz”? (Para quem é menos chegado em hip hop recomendo ao menos procurar o remix do Thom Yorke para a ótima “Gazzillion Ear”).

Jewellery é um disco de estréia logo é inevitável que tenhamos menos história com Micachu & The Shapes e que seu frescor seja maior. Não sei se o maior mérito do disco seja de Levi e seus comparsas ou do rodado produtor Matthew Herbert. Sei que cada faixa de Jewellry parece teimar em seguir uma direção inesperada. Se eu comparei DOOM a Tsui Hark (se bem que pensando melhor James Ellroy talvez fosse melhor), o trabalho de Micachu está mais para os filmes recentes de Arnaud Despalchin e seu desejo de testar 244 idéias ao mesmo tempo e em direções por vezes conflitantes. Como o cineasta francês Micachu & The Shapes parecem movidos a lançar cada milímetro de cultura pop que em algum momento consumiram e nenhum interesseem permanecer nele por mais que trinta segundos. Entre os grandes álbuns de 2009 certamente não haverá nada tão pouco orgânico como Jewellery, mas também nada tão contemporâneo e grudento.

Momento Twitter

Existe algo mais temeroso este ano do que o disco novo do Manic Street Preachers?

Pazz and Jop

Meio tarde para falar de melhores do ano passado, mas como o blog tem seus períodos de longos silêncios acabei não postando o Pazz and Jop, a lista de melhores do ano do Villa Voice, à época. O que torna o Pazz and Jop muito interessante é que o Voice pede lista para um numero muito amplo de críticos das mais variadas preferências (neste ano 579 participantes com 1671 discos votados), o que tende a apresentar uma geral do que seria o consenso da crítica musical americana. A edição completa está aqui.

1) TV on the Radio, DEAR SCIENCE,
2) Vampire Weekend, VAMPIRE WEEKEND
3) Portishead, THIRD
4) Fleet Foxes, FLEET FOXES
5) Erykah Badu, NEW AMERYKAH, PT. 1: 4TH WORLD WAR
6) Lil Wayne, THA CARTER III
7) Santogold, SANTOGOLD
8 ) Bon Iver, FOR EMMA, FOREVER AGO *
9) Nick Cave and the Bad Seeds, DIG!!! LAZARUS DIG!!!
10) Kanye West, 808S & HEARTBREAK
11) Deerhunter, MICROCASTLE/WEIRD ERA CONTINUED
12) Randy Newman, HARPS AND ANGELS
13) The Hold Steady, STAY POSITIVE
14) No Age, NOUNS
15) Girl Talk, FEED THE ANIMALS
16) My Morning Jacket, EVIL URGES
17) MGMT, ORACULAR SPECTACULAR *
18) Hercules and Love Affair, HERCULES AND LOVE AFFAIR
19) Raphael Saadiq, THE WAY I SEE IT
20) Bob Dylan, THE BOOTLEG SERIES, VOL. 8: TELL TALE SIGNS – RARE AND UNRELEASED 1989-2006
21) Coldplay, VIVA LA VIDA, OR DEATH AND ALL HIS FRIENDS
22) Los Campesinos!, HOLD ON NOW, YOUNGSTER…
23) Cut Copy, IN GHOST COLOURS
24) The Gaslight Anthem, THE ‘59 SOUND
25) R.E.M., ACCELERATE
26)Q-Tip, THE RENAISSANCE
27) Drive-By Truckers, BRIGHTER THAN CREATION’S DARK
28) M83, SATURDAYS=YOUTH
29) David Byrne & Brian Eno, EVERYTHING THAT HAPPENS WILL HAPPEN TODAY
30) She & Him, VOLUME ONE
31) Torche, MEANDERTHAL
32) The Walkmen, YOU & ME
33) Hot Chip, MADE IN THE DARK
34) Frightened Rabbit, THE MIDNIGHT ORGAN FIGHT
35) Kings Of Leon, ONLY BY THE NIGHT
36) Alejandro Escovedo, REAL ANIMAL
37) Metallica, DEATH MAGNETIC
38) Fucked Up, THE CHEMISTRY OF COMMON LIFE
39) Roots, RISING DOWN
40) T.I., PAPER TRAIL
41) Beck, MODERN GUILT
42) Blitzen Trapper, FURR
43) Stephen Malkmus and the Jicks, REAL EMOTIONAL TRASH
44) Gang Gang Dance, SAINT DYMPHNA
45) Elbow, THE SELDOM SEEN KID
46) Death Cab For Cutie, NARROW STAIRS
47) Al Green, LAY IT DOWN
48) Young Jeezy, THE RECESSION
49) The Magnetic Fields, DISTORTION
50) Vivian Girls, VIVIAN GIRLS

Art Brut

Ainda absorvendo o disco novo do Art Brut (Art Brut Vs. Satan), mas tem ao menos uma música chamada The Passenger que já é desde já um clássico.

Radiohead

Pretendia escrever algo detalhado sobre o show de domingo, mas o Tiago chegou na minha frente. De qualquer forma, foi uma noite histórica seja como espetáculo, seja com catarse coletiva, seja pela impressão recorrente de que algo muito importante estava acontecendo ali. Ao longo de mais de duas horas o Radiohead consegue pegar toda uma obra variada e reprocessa-la de forma que apesar do show ter seus altos (There, There, All I Need, Idioteque, Exit Music, Paranoid Android, Everything in Its Right Place, etc) ele se apresenta como um todo muito mais coeso do que a discografia da banda sugeriria. Também contribuiu a opção de do Kraftwerk como abertura que provoca um constraste instigante (o festival leva dez de curadoria e zero de organização).

Rápidas

And You Know Us By the Trail of Dead – The Century of Self

Hmm… então a Interscope era mesmo culpada pelos dois discos anteriores da banda. Não exatamente, mas The Century of Self é um avanço enorme. Não um retorno a Madonna e Source, Tags & Codes que alguns gostariam, mas um álbum que pega todas as tentativas de expandir o som da banda em Worlds Apart e So Divided e as aplica com muito mais força e foco.

Empire of the Sun – Walking on a Dream

O hype de certa parte da imprensa britânica esta longe de se justificar. Não é o futuro, mas “We are the People” e especialmente “Standing on the Shore” são extremamente grudentas.

New Rhodes – Everybody Loves a Scene

A estreia do New Rhodes Songs from the Lodge era uma competente coleção de canções neo-Smiths. Este segundo álbum é salto, menos pela banda tentar fugir do nicho, do que por contar com canções bem melhores. James Williams é um excelente compositor como atestam “The Joys of Finding and Losing that Girl” ou Let”s Talk”. Num mundo perfeito “Is This the Life You Want?” convenceria os Gallagher a se aposentarem.

Zomby – Where Were U in ’92?

Ambicioso, mas muito simples e conceitualmente um dos discos mais fortes do ano. Zomby parte da cultura rave do começo dos anos 90 e lhe dá um tratamento contemporâneo (majoritariamente dubstep). Zomby passa ao largo do pastiche ou revivalismo, sua descontrução é muito mais que isso. Where Were U in ‘92? é um dos discos mais criativos e intrigantes do ano, se movenso menos de forma a polir do que reimaginar um som. Seria impressionante mesmo se fosse só um compacto contendo “Get Sorted” e “U Are My Fantasy (Street Fighter II Theme Remix)”.

1) Sobre o disco basta dizer que confirma a longa curva descendente da banda desde o primeiro EP.

2) Agora pelo menos ajuda a destacar ainda mais como o disco do Franz Ferdinand é bom.

Toda vez que eu menciono o The Pains of Being Pure at Heart para algum amigo, ele invariavelmente torce o nariz a priori para o nome da banda. Mas a verdade é que o nome da banda reflete perfeitamente os méritos dela. Ouvindo está estréia homônima é incrível como se trata de um disco “velho”, uma coleção dez canções neo-shoegaze composta por um bando de garotos que ouviram muito Ride e o primeiro My Bloody Valentine e que a principio poderia facilmente estar no catalogo da Midsummer Madness por volta de 96. Só que existe aqui um mergulho direto que garante ao disco uma força que um bando de canções guitar rock simples e requentadas jamais deveriam ter. Cançoes como “Come Saturday, “Young Adult Friction” ou “This Love is Fucking Right”são exemplos primorosos de se pegar uma série de influencias e misturas com tamanha exatidão e executá-las de forma tão precisas que o que o material teria de derivativo se dissolve completamente dentro das canções até isto deixar de ser uma questão. Voltando ao nome da banda é preciso de certo culhão para se denominar The Pains of Being Pure at Heart, como é preciso para executar um repertório desses com tamanha naturalidade. Se estamos diante de um dos melhores discos do ano até aqui muito se deve a segurança como a banda se porta; tudo é preciso e compacto, não há, por exemplo, nenhuma tentativa de remexer de mais a formula ou ser eclético para soar diferente, o que garante ao disco uma grande coesão e como a banda é econômica (tanto no álbum como um todo como em cada canção) não há nenhuma gordura sobrando aqui. Entre este disco e o divertidíssimo Alight of the Night do Crystal Stills, 2009 começou ótimo para quem curte uma distorção melódica agridoce britânica.

The Pains of Being Pure at Heart – This Love is Fucking Right

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